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Marginália

Marginália apresenta um conjunto de obras inspiradas em nomes da contracultura. Sindicalistas, ativistas e excluídos que se levantaram contra o status quo. Nascida da vontade de um grupo de amigos em voltar os holofotes para seis personagens de grande importância no cenário sociocultural do Brasil: Madame Satã, Marietta Baderna, Nise da Silveira, Margarida Maria Alves, Maria da Penha e (Dadá) Sérgia Ribeiro da Silva.

O destaque dado a estes personagens reflete a necessidade de coloca-los na condição de protagonistas, que lhes foi negada ou diminuída por serem quem foram. Não é à toa que a maioria dos nomes seja de mulheres, e o único homem entre elas tenha transitado entre o masculino e o feminino em uma época na qual a fluidez de gênero era quase impensável.

Assim, a luta a favor das minorias, a voz dos trabalhadores rurais, a quebra dos paradigmas da fragilidade atribuído ao feminino e a coragem de erguer a voz contra o abuso e a violência, ganham vida através do traço do artista Thiago Limón. Paulistano da Vila Guilherme tem entre suas obras o livro “Barriga d’água”, sobre mal estar social urbano. Também participou do PinUPos, blog colaborativo com releituras de Pinups masculinos e integrou a exposição coletiva “Entre a Obra e a Dobra” organizada pela ABER e BMA, com o livro de artista “D(i)espensa” 2015. No mesmo ano, foi convidado pela BMA a desenvolver um mural baseado no conto “Nízia Figueira, sua criada” do escritor Mario de Andrade, em comemoração aos 90 anos da biblioteca e 70 anos da obra do escritor.

 

Madame Satã

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João Francisco dos Santos foi a personificação da máxima de Oiticica: “seja marginal, seja herói”. Brasileiro, negro, nordestino e homossexual “sempre fui, sou e serei”, dizia. Nascido em Glória do Goitá, e mais conhecido como Madame Satã – “os amigos chamam só de Satã” – , foi um transformista brasileiro visto como personagem emblemático da vida noturna e marginal carioca na primeira metade do século XX. Considerado exímio capoeirista, lutou por várias vezes contra mais de um policial, geralmente em resposta a insultos que tivessem como alvo mendigos, prostitutas, travestis e negros. Lutava, de acordo com ele por “raiva” da opressão policial. a revolta contra o abuso de autoridade o acompanhou até sua morte, em 1976 “Sempre tive e morro com ela”.

Marietta Maria Baderna

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Nascida na Itália, 1828, na cidade de Piacenza, a talentosa bailarina (aluna do grande Carlo Blasis) era militante, seguidora de Giuseppe Mazzini, e obedecia a ordem da diretiva revolucionária de não participar da vida artística enquanto os austríacos estivessem na Itália.
Por perseguição política, exilou-se com o pai no Brasil, onde fez sucesso no palco, conquistando o público do Teatro São Pedro de Alcântara. Apreciadora do absinto e considerada “namoradeira”, de espírito rebelde e contestador, Marietta arrebatava o coração dos jovens “badernistas”, grupo criado por fãs em homenagem a ela. Sempre à frente de seu tempo, interessou-se profundamente pelos ritmos afro-brasileiros, sendo uma das primeiras mulheres europeias a utiliza-los em suas performances. Sentia-se tão à vontade com as coreografias de matriz africana que foi considerada a musa do lundum, da cachuca e da umbigada, danças de movimentos bastante ousados para a época de dom Pedro 2º. Era uma estrela de grande porte, rivalizando até com as divas do canto lírico. Morreu em 1870, sempre fiel aos ideais republicanos que marcaram sua juventude.

 

Nise da Silveira

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“O afeto é uma mola propulsora. Em tudo” era o que dizia Nise, renomada médica psiquiatra brasileira que revolucionou o tratamento das desordens mentais no país. Foi aluna de Carl Jung, a quem considerava “um mestre e uma pista”. Nascida em 1905, dedicou sua vida à construir uma psiquiatria “livre da grande marca que ela tem do cartesianismo”, procurando construir uma atmosfera afetiva na qual os pacientes pudessem viver. Manifestou-se radicalmente contrária às formas agressivas de tratamento de sua época, tais como o confinamento em hospitais psiquiátricos, eletrochoque, insulinoterapia e lobotomia. Militou por toda vida, falecendo em 1999, cercada de reconhecimento e considerada um dos grandes nomes das ciências da psiquê no Brasil e no mundo. Celbrizou-se nos meios de comunicação com sua famosa frase “Não se cura além da conta. Gente curada demais é gente chata”.

Dadá

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(Sérgia Ribeiro da Silva “Suçuarana do Cangaço”)
“Um dos ataques feitos pelas volantes (em outubro de 1939, na fazenda Lagoa da Serra em Sergipe), Corisco, o Diabo Louro é ferido em ambas as mãos, perdendo a capacidade para atirar. Dadá, então, torna-se a primeira e única mulher a tomar parte ativa – e não meramente defensiva – nas lutas do cangaço.” Dadá era extremamente respeitada pelos grandes nomes do banditismo social da época, sendo considerada por Lampião como um de seus tenentes “Dadá vale mais que muito cangaceiro”, dizia o lendário capitão Virgulino. Outra passagem que dá conta da bravura de Dadá é contada em entrevista, já no final da vida: em meio ao conflito, um membro das volantes exige que ela baixe a arma, ordenando “deixe o fuzil, cabra da peste!”, ao que a cangaceira responde “Num deixo nada, aqui tem mais que homem, filho da puta”. Companheira do “Diabo Louro” desde os 12 anos de idade, ao lado dele lutou até o fim. A morte de Corisco significou o fim do cangaço para Dadá, mas não um encerramento para suas lutas. No mesmo confronto que tirou a vida do companheiro, foi alvejada e teve seu pé direito amputado.Nada disso a impediu de viver e nem de se tornar uma das memórias vivas do cangaço, até sua morte em 1995, aos 79 anos.

Margarida Maria Alves

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Margarida Maria Alves foi uma sindicalista e defensora dos direitos humanos. Durante o período em que esteve à frente do sindicato local de alagoa Grande, sua cidade natal, foi responsável por mais de cem ações na justiça do trabalho regional, tendo sido a primeira mulher a lutar pelos direitos trabalhistas no estado da Paraíba durante a ditadura militar. “É melhor morrer na luta do que morrer de fome”, disse em discurso comemorativo ao dia do trabalho, em 1983 Três meses depois, a profecia se cumpria.Foi assassinada aos 53 anos, diante do marido e filho, com um tiro no rosto a mando de coronéis do campo. Margarida, entretanto, vive. Na memória do povo e nas palavras da violeira e repentista Maria da Soledade Leite, amiga pessoal da sindicalista, que escreveu, quando de sua morte, os versos: “Dia 12 de agosto nasceu um sol diferente/um aspecto de tristeza, o sol frio em vez de quente/ era Deus dando o sinal da morte de uma inocente (…) Jesus Cristo deu a vida pra redimir os pecados/ Tiradentes pela pátria foi morto e esquartejado/ Margarida na defesa dos pobres e necessitados”

Maria da Penha

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Maria da Penha Maia Fernandes é uma farmacêutica brasileira vitima de violência doméstica. Após ter sido atacada diversas vezes pelo marido resultando em uma paraplegia, a líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres teve uma lei sancionada com seu nome. A Lei Maria da Penha, denominação popular da Lei número 11.340 é um dispositivo legal brasileiro que visa aumentar o rigor das punições sobre crimes domésticos. É normalmente aplicada aos homens que agridem fisicamente ou psicologicamente a uma mulher. A luta de Maria, pessoal e coletiva, está longe de terminar: embora tenha sido até o ponto de partida para o reconhecimento do primeiro caso de violência doméstica pela OEA, o caso acabou tendo um desfecho brando para o criminoso. Dezenove anos depois do crime, seu agressor foi condenado a oito anos de prisão, dos quais apenas dois foram cumpridos, Solto em 2004, hoje está livre.

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